A invasão dos marcianos: a peça que o rádio pregou
Já que estamos próximos do Halloween vale a pena lembrar dessa "pegadinha", que se tornou o caso de histeria coletiva mais célebre da história.
Há 71 anos pessoas entravam em pânico ao saber que uma "invasão de marcianos" estava acontecendo.
No dia 30 de outubro de 1938, cerca de 6 milhões de pessoas ouviam a adaptação de "A Guerra dos Mundos" por Orson Welles na rádio CBS. "A Guerra dos Mundos", de 1898 é um dos livros de ficção científica mais famosos do escritor H.G. Wells e por si só já é assustador. O programa Radioteatro Mercury era interrompido com uma cobertura jornalística perfeitamente executada sobre uma invasão de marcianos.
A transmissão usou de todos os recursos do jornalismo da época e o momento histórico também era favorável ao pânico coletivo. Os E.U.A. ainda estavam na Grande Depressão e havia a possibilidade de uma guerra na Europa. O rádio era o principal meio de comunicação e tinha enorme influência sobre a população.
A CBS calculou na época que o programa teve cerca de seis milhões de ouvintes, dos quais metade perderam a introdução, que informava que tudo era ficção. Pelo menos 1,2 milhão acreditaram que estavam ouvindo a uma reportagem real. Desses, meio milhão entraram em pânico: saíram histéricos nas ruas, invadiram quartéis dos bombeiros, postos policiais, hospitais, redações de jornais, havendo até casos de suicídio.
Em 1955, contudo Orson Welles assumiria que aquele pânico era intencional . O mundo lhes parecia ser alimentado por tudo que sai daquela “caixa mágica”, e nesse sentido a transmissão era, nas palavras de Welles, “um assalto à credibilidade daquela máquina” e um alerta para que as pessoas deixassem de se orientar por opiniões pré-formatadas, “viessem elas do rádio ou não”.
Uma das inúmeras histórias sobre o trauma causado pela transmissão é a de vários cidadãos que tiveram de ser resgatados seis semanas depois por voluntários da Cruz Vermelha nas montanhas de Dakota e não acreditavam que tudo aqauilo tinha sido ficção.
O episódio tornou Welles famoso levando-o a dirigir depois o filme "Cidadão Kane".
No começo da transmissão, ele se apresentara como um certo professor Pierson, "famoso astrônomo do Observatório de Princeton", e declarara pelo rádio, na forma de entrevista, que estava ocorrendo uma série de fenômenos na crosta do planeta Marte.
Posteriormente, a emissora informava que discos voadores teriam pousado em várias partes do país. A transmissão teve direito até ao pronunciamento de um hipotético secretário do Interior, "diretamente de Washington", admitindo a gravidade da situação e pedindo calma aos moradores.
A Transmissão
Eram oito horas da noite em Nova York quando o locutor anunciou, naquele 30 de outubro de 1938:
"A Columbia Broadcasting System e as emissoras filiadas apresentam Orson Welles e o Mercury Theatre On The Air, em A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells".
Ao fundo, o trecho de um concerto musical de Tchaikovsky. Volta o locutor:
"Senhoras e senhores: o diretor do Mercury Theatre e o astro deste programa, Orson Welles!"
Welles: "Sabemos que desde os primeiros anos do século XX nosso mundo vem sendo observado meticulosamente por inteligências superiores às do homem, mas tão mortais quanto as dele. Sabemos que, enquanto os seres humanos ocupavam-se dos seus vários problemas, eram estudados tão minuciosamente quanto um homem que, munido de um microscópio, observasse as criaturas minúsculas que pululam e se multiplicam numa gota d'água. Com infinita complacência, o povo andou de um lado para outro sobre a Terra, cuidando de seus afazeres, sereno na segurança do domínio que exerce sobre esse pequeno fragmento solar rodopiante que, por sorte ou desígnio, o homem herdou do negro mistério do tempo e do espaço. Entretanto, através do imenso e etéreo abismo, mentes que estão para as nossas, como estas estão para as dos animais selvagens, intelectos vastos mas frios e sem compaixão, contemplavam esta Terra com olhos cobiçosos, e fizeram seus planos contra nós".
O programa é interrompido por um locutor anunciando uma transmissão diretamente do Meridian Room do hotel Park Plaza, de Nova York, onde Ramon Raquello e sua orquestra tocavam "La Cumparsita". Minutos depois, outra interrupção, agora para a informação de que teriam ocorrido misteriosas explosões de gás incandescente no Planeta Marte. O "professor Pierson" começa, então, a dar sua "entrevista" sobre o estranho fenômeno até que o locutor faz novas interrupções para noticiar o aparecimento de discos voadores em diversas partes do país.
"Senhoras e senhores" - dizia o locutor, num dos comunicados - "tenho uma grave declaração a fazer. Por incrível que pareça, tanto as observações da ciência quanto a evidência diante de nossos olhos levam-nos à indiscutível conclusão de que esses estranhos seres que desceram esta noite sobre as fazendas de Nova Jersey são a vanguarda de um exército de invasores vindos do planeta Marte. A batalha em Grovers Mill resultou em uma das mais retumbantes derrotas sofridas por um exército nos tempos modernos. Sete mil homens armados com rifles e metralhadoras enfrentaram uma única máquina invasora de Marte. Apenas 120 sobreviveram. Os outros jazem na área da batalha."
A descrição continua com detalhes assustadores e a situação fica ainda mais tensa com o pronunciamento do "secretário do Interior", diretamente de Washington":
"Cidadãos do meu país: não devo ocultar a gravidade da situação que nosso país atravessa, nem a preocupação do seu governo em proteger a vida e as propriedades do seu povo..."
Seguem-se relatos de novas batalhas, até o intervalo, quando o locutor informa:
"Estão ouvindo uma apresentação da CBS do Mercury Theatre de Orson Welles, numa dramatização de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells. O programa continuará após um breve intervalo. Aqui fala a Columbia Broadcasting System.."
A esta altura, porém, muitos ouvintes, já em pânico, nem ouviram a informação. A notícia já estava se espalhando. Na segunda parte do programa, o tal "professor Pierson" descreve o clima assustador.
"Alcancei a rua 14 e lá estava novamente o pó preto, vários cadáveres e um cheiro diabólico, pavoroso, exalando dos gradis dos porões de algumas das casas.."
A descrição continua até dar um salto de alguns anos mais tarde, agora com a vida de volta ao normal, as crianças brincando nas ruas, o povo tranqüilo. E Welles termina o programa:
"Aqui fala Orson Welles desligado do seu personagem para assegurar-lhes que 'A Guerra dos Mundos' não teve outro objetivo além de oferecer-lhes um bom divertimento para o domingo. Sua versão radiofônica vestiu um lençol branco e saiu de trás de uma moita fazendo um 'buuuu'. Aniquilamos o mundo diante de seus ouvidos e destruímos completamente a CBS. Espero que estejam aliviados por saberem que não tencionávamos isso e que ambas as instituições estão funcionando normalmente. De modo que, adeus a todos e lembrem-se, por favor, pelo dia de amanhã e pelo seguinte, da terrível lição que receberam esta noite. Este sorridente e globular invasor da sua sala de estar é um habitante do país das abóboras. Se baterem à sua porta e não houver ninguém lá, não é nenhum marciano... É Halloween!"
O programa de Orson Welles continua a ser considerado um dos momentos mais fascinantes da história da comunicação de massa.
Fontes: 1, 2, 3, 4





























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